Segunda, Novembro 21, 2005

O Grande Mistério

Já apresentei aqui nesse blog o fabuloso Bazar Tem-tudo, e a Cantina da Estação e seu odor peculiar, entretanto uma cidade pequena pode também propiciar além de comécios assaz aprasíveis, alguns mistérios bem estranhos como, por exemplo, o mistério de Carlos Adão.

Não me perguntem quem ou o que é Carlos Adão, afinal se eu soubesse não seria um mistério, mas anos atrás que eu reparei pela primeira vez nesse fenômeno mongaguaense. Em um muro meio sujo e com a tinta semi-descascada, alguém havia pintado sobre um fundo preto a frase: "Carlos Adão é Amigo", em verde fosforecente. Na hora não dei muita atenção, como era eleição municipal os muros de toda a cidade estavam infestados de frases como essa, de candidatos a vereador e prefeito, apesar dessa  frase em si ter uma particularidade, não ter o número de legenda do pretenso candidato.
Com o passar dos meses, as frases de apoio à Carlos Adão se multiplicaram absurdamente, agora abrangendo até o município vizinho com pequenas alterações, como: "Carlos Adão é Rock", "Carlos Adão é Amor", "Beltrano aprova Carlos Adão". Obviamente não se tratava de um candidato, o período eletivo tinha acabado meses atrás e a quantidade de frases parecia aumentar a cada dia, até que repentinamente, pararam de aparecer, algumas até desapareceram misteriosamente, substituídas por muros recém-pintados, como se nunca estivem estado lá.
Sei que você está argumentando para o monitor que o proprietário poderia simplesmente ter pintado o muro. Mas convenhamos que é anormal dezenas de muro serem pintadoes em apenas um dia.

Passaram-se anos até que ouvisse novamente falar de Carlos Adão, e quando ele parecia completamente esquecido(dessa vez anos antes da eleição), como numa pandemia, a cidade da noite para o dia estava cheia de frases em apoio  ao sombrio personagem. Como da primeira vez, multiplicaram-se com uma rapidez fantástica, até que cessasse repentinamente sem nenhuma explicação.
Novamente passaram-se vários anos até que agora, pouco mais de uma semana, o Fenômeno Carlos Adão parece ter retornado enchendo os muros da cidade com fundos pretos e frases escritas em verde. Ao que parece é o terceiro surto que provavelmente deve desaparecer como os dois anteriores deixando uma interrogação para os moradores:

Afinal, quem é Carlos Adão?

Sexta, Julho 22, 2005

A Cantina da Estação

Já que alguns ficaram curiosos para saber o que é a Cantina da Estação que citei no post abaixo, resolvi explicar para os leitores desse humilde blog o que vêm a ser o infame muquifo.

Este é o outro lugar mágico da maravilhosa e micro cidade litorânea onde estou ancorado no momento, com seus longos treze quilômetros de praias e palmeiras verdejantes.
Primariamente a Cantina da Estação, ou Bar do trilho, como alguns preferem se referir ao local, era realmente isso que o nome óbvio retrata: Uma cantina em uma estação de trem do ramal de linhas Santos x Juquiá, que funcionou para transporte de passageiros até 1997 e para transporte de enxofre até 2003.
Entretanto, hoje lá funciona um boteco que é o ponto de encontro do povo da cidade na sua emocionante vida noturna, e no prédio adjacente está locado o clube de motos da cidade, a Tribo da Estação, que surgiu no bar, claro.

Ah! Não se empolguem quanto ao lugar, basicamente é um boteco sujo e apertado com dois balcões, um dono mal-humorado, grosso e chavequeiro, e um ajudante bêbado que serve cerveja quente, o som (Rock n’ roll dos bons) rola num cd-player tosco, as paredes tem umas pinturas estranhas que com a sujeira e o passar do tempo perderam completamente o sentido original, se é que um dia tiveram algum sentido, e o que é mais original no lugar: o tão famoso e celebrado odor de mijo.
Odor de mijo?
Sim, cheiro de mijo.
Como o boteco não tem banheiro, todo mundo que está ali, apreciando sua cerveja Crystal, vai mijar em um paredão que fica atrás do bar, beirando os trilhos de trem, o que dá um aroma todo especial ao lugar na primeira brisa noturna.

Acredito que a fama do boteco veio da pinga-com-mel mais bem servida da cidade (tanto a pinga, quanto o mel) é que atrai tanto os habitantes do pequeno paraíso tropical para o lugar, ou ainda o vinho barato, Matanna ou São Tomé, que agrada até os paladares mais exigentes, ou ainda o aconchegante ambiente rústico, com cadeiras de plástico velhas e imundas (algumas autografas por personalidades locais).

Você deve estar se perguntando: “Se esse bar é uma bosta tão grande, por quê todos vão lá?”. Quem sou eu para explicar esses fenômenos da natureza?Talvez seja a pinga, talvez seja o vinho, talvez seja falta de opção.

Quinta, Julho 21, 2005

O Tem-Tudo

Tem coisas que só uma cidade pequena faz por você.
Aqui na cidadezinha perdida no litoral de São Paulo onde resido, tem um comércio maravilhoso chamado: Bazar Tem-Tudo. Nome sugestivo, ahn?

“Lá não pode ter realmente tudo!”, você diz descrente.

Eu te respondo que se lá não tem tudo, é o lugar que mais se aproxima a isso no mundo. Não, não pense que é um local magnífico com prateleiras organizadas e catalogadas para facilitar a localização, atendentes em avental branco, super treinadas para melhor servi-lo, num prédio lindíssimo com enormes vidraças azuladas.
O lugar é um verdadeiro muquifo.
Com duas entradas com portas de alumínio pichadas, ele tem forma de caixote, o teto alto com um pé direito de uns cinco metros pra guardar toda a tranqueirada amontoada durante anos lá dentro nas prateleiras cheias de pó que, lado a lado, formam corredores minúsculos, quase impossíveis de transitar. As atendentes são cínicas e mal educadas, anotando seu pedido em papel de embrulho recortado, meio sujo, e o caixa, que por acaso é o dono, parece estar sempre de mal-humor, quando não tenta te embolsar uns centavos a mais.

Então o que tem de maravilhoso?
Simples, lá dentro você realmente encontra aquilo que precisar. Logo na entrada do lugar, tem uma caixa de correio, daquelas antigas, de ferro, com um pombo desenhado, ao lado um canhão de jardim recostado em um forno a lenha que briga para que as pilhas e pilhas de correntes de todos os tamanhos não caiam sobre ele. Ao lado das correntes assustadoras estão os produtos alimentícios, como bolachas, paçocas, Ki-suco, gatorade, e demais guloseimas ultra-calóricas. As lãs de todas as cores, linhas, agulhas de tricô, brincos, tachinhas, botões e outras coisas usadas para a costura, estão paralelas com a estante onde estão amontoados, o material escolar (completíssimo), tintas, pincéis, papa-bolinhas, telefones, e telas de pintura (essas amontoadas próximo há um castelo, daqueles de playground). Na parte de trás dessa estante estão localizados os baldes, espetos para churrasco, utensílios para jardinagem, vassouras, detergentes, rodos, panos de chão, desentupidores, cimento, aparelhos de pedreiro, carrinhos-de-mão, panelas em geral, escumadeiras, talheres e tudo que você puder imaginar que possa ter em uma cozinha (não se esqueça que o fogão a lenha está na entrada) e ameaçadoramente pende na ultima estante as churrasqueiras, posicionadas ao lado das garrafas térmicas e dos coadores de café.
Os pratos, xícaras, canecas, raladores, buchas de banho, binóculos, capacetes de obra, bronzeadores e pássaros de madeira, você encontrará na parede a direita, sob o mezanino onde ficam as roupas de bebê, de adulto, camisinhas (sugestivo...), rolos infindos de fita crepe, quadros de Jesus Cristo bordados, pequenas imagens de santos e as calculadoras. Em outro corredor, o dos brinquedos, você poderá facilmente encontrar, ferroramas, bonecas, jogos de tabuleiro, RPG, e bonecos do Jaspion (R$ 30,00), fora outros de menor importância.

Claro que tudo isso que citei é apenas um exemplo da quantidade de coisas que você pode encontrar lá. Esses dias atrás procurando saber o preço de um cortador de grama elétrico, encontrei umas quinze garrafinhas de mini-coca e o caminhãozinho (aquelas das promoções na década de 80), fiquei abismado. E, caso você não encontre o que estiver procurando (não que isso já tenha acontecido comigo), comunique o dono do ocorrido bizarro que ele em menos de uma semana providênciará o que eu falta em seu rico estoque multi-uso. Contudo ao ir lá leve dinheiro vivo, pois não aceitam cheques, cartão de crédito, muito menos fiado.

Sem dúvida o Bazar Tem-Tudo, junto com o Bar do Trilho, ou Cantina da Estação (ainda escreverei aqui sobre ela, a melhor pinga com mel do Brasil e Vinho Matanna), como preferirem, é um dos lugares mais interessantes da minha cidade.